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Carta Mensal

 

Caros amigos,

Há quase 23 anos escrevo, todos os meses, uma carta endereçada à comunidade, aos parceiros e aos amigos do Projeto Âncora. Essas cartas nasceram da vontade de prestar contas do que fazíamos, mas também dizer o que pensávamos, naquele momento, sobre o mundo e o país, e de como tudo tinha a ver com a educação de nossas crianças e jovens.

 

Neste aniversário de 23 anos, completado dia 23 de setembro eu escrevo a última carta em nome do Projeto Âncora. É com emoção que me despeço dessa função e o faço por algumas razões, embora siga próxima do Projeto Âncora no papel de Conselheira.

 

O Projeto Âncora foi um projeto pessoal, meu e do Walter Steurer, meu marido, morto em 2011.Mas não foi um projeto para nós. Foi um projeto para a comunidade e o mundo. Uma forma de devolver o que desse país recebemos, como dizia o Walter.
Pela primeira vez temos na presidência do Projeto Âncora uma mãe de três crianças matriculadas na entidade e um ex-aluno que foi também funcionário. Isso é um forte sinal de que os fundadores já cumpriram sua missão e de que cabe à comunidade assumir cada vez mais os rumos da entidade.

 

1996 - Regina Steurer

Regina Machado Steurer acompanha a subida da lona do Âncora em 1996

 

Outro sinal de que trilhamos o caminho planejado é que jovens na idade do Ensino Médio no Âncora começam, por si próprios, a pensar que educação querem e que o mundo precisa. Um outro modo de fazer universidade, protagonizada por jovens de 14, 15 anos, pode estar
nascendo nessa incubadora Âncora. Nessa universidade, a sabedoria, a imaginação e a criatividade das pessoas serão ponto de partida de qualquer disciplina, o chão será o Brasil, sua gente, seus saberes e sua cultura, uma escola para toda a vida, onde cada aluno poderá construir sua própria visão sobre desenvolvimento de forma plural, ecológica e colaborativa.

Um terceiro motivo é que, há algum tempo, já não me ocupo do dia a dia da entidade, e sinto cada vez mais o chamado para outros projetos de uma educação cada vez mais libertadora, que enxerga o potencial transformador das comunidades, sua gente, sua cultura e seu território. Também gostaria de ter tempo e tomar distância para escrever a história do Projeto Âncora. Além de querer me dedicar mais ao que mais sei fazer: arquitetura em comunidades carentes, de boa técnica, funcionalidade e beleza.

De agora em diante as cartas serão responsabilidade de um grupo formado por jovens, pais e educadores. Agora vocês escutarão a voz da comunidade. E eu vou adorar estar no papel de leitora.

 

Ficaremos em boa companhia.

 

Muito, muito obrigada!
Regina Machado Steurer
Conselheira Projeto Âncora

 

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Foto de Patricia Borges, educadora das artes, durante assembleia.